Categoria: Comportamento

Top of mind conservador

Saiu na última terça-feira, dia 28/10, o caderno anual Folha Top of mind. Ele é sempre um material rico de pesquisa. Imagino que, ao longo desta semana, ele tenha sido discutido em muitos cursos de Publicidade, mas também em sociologia, psicologia, semiótica, etc..

Dentre tantas coisas a se considerar, chamo a atenção para duas. Em primeiro lugar, o grande espaço inicial reservado para aqueles que criam e cultivam as marcas: as agências publicitárias e alguns de seus nomes mais conhecidos. Há algum tempo já elas próprias são marcas relativamente públicas, para além do meio profissional específico. Na própria campanha presidencial, o responsável pela propaganda da presidente teve seu nome bastante evocado.

Outra observação diz respeito à manutenção da enorme maior parte das marcas Top of mind por categoria. Imagino que a construção de uma marca sólida a ponto de se sedimentar em nossa memória seja um trabalho lento. Ao evocarmos a primeira marca que nos vem à mente, a reposta será intuitiva, pré-reflexiva. Isto que significa: internalizada a ponto de funcionar como reflexo.

Tornou-se um Best seller em 2011 um livro chamado Thinking, fast and slow, do ganhador do Nobel de economia Daniel Kahneman (Em português, pela Editora Objetiva: Rápido e devagar).  Em linhas gerais, ele postula que tenhamos dois modos de pensamento: um rápido e outra lento. O rápido é aquele evocado na pesquisa Top of mind, baseado em nossas experiência, que criaram associações regulares, tornadas reflexas, como dissemos. Nossos pré-conceitos, como forma de dizer. O pensamento lento é reflexivo, consciente, mais elaborado e capaz de considerar variáveis atuais e se transformar. Há quem queira associar o primeiro a uma irracionalidade e só considerar racional o segundo. Mas não é assim, a intuição seria esta resposta imediata baseada em nossas experiências anteriores consolidadas; há racionalidade pré-reflexiva nele.

Não é fácil romper conexões fortemente estabelecidas e tomar seu lugar. Ao longo do tempo, vemos eventualmente marcas surgirem com força e desaparecerem e é mais raro o ingresso definitivo no naquele clube seleto.

Para quem duvidar da força conservadora da intuição, lembre-se que teremos para o governo federal e estadual dois reeleitos, sob partidos cujos números já estão incorporados na memória popular: são Top of mind, mesmo que não sejam necessariamente mentes top.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.    

 


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100 assédios em 10 horas

O movimento Hollaback!, com o objetivo de acabar com o assédio nas ruas, filmou uma mulher caminhando pelas ruas de Manhattan num período de 10 horas a fim de retratar os inúmeros assédios verbais que as mulheres sofrem dia-a-dia nas ruas da cidade (daquela e de praticamente todas as outras do mundo).

A mulher retratada é Shoshanna Roberts, uma atriz da cidade de Nova Iorque. Abaixo, o vídeo completo:

O vídeo já tem mais de 7 milhões de views e o mais chocante/absurdo/nojento é olharmos comentários do tipo “ela só foi elogiada! deveria se sentir bem com isso” ou “se fosse na Índia ela teria sido estuprada, isso não é nada” (seissoaquifosseoTexaseujátinhadadounstirosnumbabacadesses).

A seguir, alguns dos lastimáveis comentários sobre o vídeo:

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#lastimável

E depois dizem que as meninas superpoderosas da campanha da FCKH8 que são um problema, né?

Outra recente campanha denunciatória sobre os abusos contra a mulher é a recente “NO MORE”, que figura inúmeros ícones da liga de futebol americano NFL apelando pelo fim de abusos e violência contra as mulheres. Estamos em 2014 e essa história de “Ela estava pedindo!” ou “É que ele ficou irritado” não são mais desculpa. Aliás, nunca foram.

Abaixo, o vídeo completo.

E como elas mesmas dizem: Feminism is coming up your f*%$#!@ ass!


Sai sempre de casa com uma palheta, uma câmera e um livro.


Os rabiscos dos estudantes na era medieval

Erik Kwakkel é um historiador especializado em livros medievais que trabalha na Universidade de Leiden, nos Países Baixos.

Ele posta em seu Tumblr todo o tipo de devaneio literário-medieval, dedicando-se a fotografar e registrar os mínimos detalhes dos livros que manuseia diariamente.

Segundo ele, seu trabalho é para colocar a mão na massa e um bom dia de trabalho é aquele em que ele sai do expediente com as mãos cheias de poeira medieval.

Nos últimos tempos ele percebeu que um hábito comum nos dias de hoje com alunos entediados é igualzinho ao de 800 anos atrás: rabiscar e desenhavar nos livros.

Abaixo, alguns exemplos do que o historiador encontrou:

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E hoje em dia:

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A famosa banda de thrash metal

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Exemplos de doodles chineses

Obrigado por isso, Gutenberg.


Sai sempre de casa com uma palheta, uma câmera e um livro.


O legado despolitizante da campanha

Em dois dias, teremos a conclusão do processo eleitoral. As campanhas foram conduzidas com estratégias de marketing profissionais. A questão era ser eleito e os dispositivos que pareceram necessários foram acionados. Uma eleição é uma campanha como outra qualquer? Uma campanha qualquer é apenas uma campanha? A linguagem e os meios não guardam relação com a especificidade do objeto de nossa ação?

Esta campanha sugere que não. Trata-se exclusivamente de ser eleito e cada atitude é medida pragmaticamente. Como os dois candidatos e partidos são amplamente conhecidos e estão no poder de alguma forma há bastante tempo, o trabalho foi mais negativo- atacar o adversário- que propositivo. Quem ganhar, vai “ganhar perdendo”, para usar uma expressão de Marina Silva.

Descobri também nesta campanha que eu e minhas irmãs, quando crianças, éramos tão maduros quanto os candidatos à presidência. A cada vez que minha mãe nos flagrava numa briga, dizíamos logo: “foi o outro que começou”, para nos desresponsabilizarmos por nossas agressões. Minha sábia mãe respondia: “não quero saber quem começou, quero saber quem vai parar”. E, eventualmente, distribuía democráticas palmadas para todos. Outra frase recorrente foi “que moral você tem para falar?”. Isto sugere que nosso padrão moral segue sendo rebaixado: nosso parâmetro deixou de ser ético, passamos a nos medir por aqueles que acusamos de baixos, numa enorme auto-indulgência.

Longe se vai algo como “a esperança venceu o medo” de Lula ou “yes we can”, de Obama. Esta campanha está sendo marcada por ressentimento e ódio, com o medo sendo insuflado dos dois lados.

Talvez isto seja simplesmente mais realista: a oposição sem ter muito o que dizer, vende-se vagamente como mudança. A situação mantem boa parte das importantes conquistas sociais sob o formato “bolsa”, o que mantem a população dependente do governo; e a campanha explorou isto, ameaçando com a ideia de que os adversários destruiriam os ganhos adquiridos.

E os números das pesquisas (com todo o cuidado com elas que o primeiro turno nos ensinou a ter) indicam que quem quer que ganhe, será por uma diferença pequena.

Saldo, quem estiver eleito na próxima segunda terá em mãos um país dividido. Quando vier a se perguntar por quê a oposição é raivosa e sistemática ou por quê o povo é alienado e distante do processo político, deveria se lembrar do quanto contribuiu para isto na condução de sua campanha.

Os fins justificam os meios ou o meio é a mensagem?

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.    

 

 


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FCKH8: Uma campanha contra o sexismo

A marca de camisetas FCKH8 retratou em seu último comercial meninas de 6 a 13 anos vestidas de princesas descendo o verbo em alguns aspectos da nossa sociedade.

Segundo o site da marca, a FCKH8 (que pode ser lido como “f*ck hate”) é uma empresa que tem como objetivo uma mudança social: armar milhares de pessoas com camisetas pró-LGBT, anti-racismo e anti-sexismo para que seus clientes funcionem como pequenos outdoors em prol da mudança.

O filme parte do seguinte princípio: A sociedade acha pior oprimir uma mulher de inúmeras maneiras ou ver uma princesinha boca-suja contra essas injustiças?

Ao que tudo indica, a segunda opção é considerada pior pela maioria. É incrível como a sociedade se choca com as palavras mas não com os atos, ainda mais nesse ambiente em que 20% sofrem algum tipo de violência sexual e em que a desigualdade de salário é notável entre homens e mulheres.

O vídeo já foi removido do Youtube e foi tirado do Vimeo NO MOMENTO EM QUE ESSA MATÉRIA ERA ESCRITA, porém ele continua no ar em sua página oficial do Facebook. (Clicando aqui você pode ver o link em que o filme era hospedado no Vimeo.)

O link do vídeo no Facebook pode ser conferido clicando aqui.

A frase dita pelo único garoto que figura no comercial (e com um vestido rosa) exemplifica: Quando você diz para um menino não se comportar como uma menina você assume que ser menina é ruim.

O fato desse vídeo ser deletado nessas duas plataformas em tão pouco tempo é apenas mais uma prova de que é necessária uma mudança urgente de comportamento, além de ampla conscientização sobre esses aspectos tão arraigados na nossa sociedade.

E para terminar com classe, AQUI PR’O SEU MACHISMO:

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Por uma semiótica do afeto

A capa e a chamada verbal da Revista Época desta semana “A Eleição do Vale-Tudo” já enuncia o problema: como eleitores supostamente democráticos, iremos às urnas no próximo domingo divididos entre reeleger a atual presidente Dilma Rousseff (PT) ou eleger o senador Aécio Neves (PSDB), e tendo que presenciar a disputa mais agressiva, para não dizer desumana, dos últimos 25 anos. Como bem veicula a referida publicação, em 1989, na primeira eleição presidencial depois da redemocratização, a disputa entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva foi igualmente acirrada. Mas não havia a divisão geográfica, entre Norte e Sul, nem a socioeconômica, entre mais ricos e mais pobres, como há agora.

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As agressões e violências verbais entre os dois candidatos presenciados nos dois primeiros debates do segundo turno, migraram para as mídias sociais e agora presenciamos a mesma virulência discursiva nos eleitores de ambos os candidatos. Novo questionamento: os princípios básicos da convivência social não pressupõem respeito às diferenças que nos singularizam? A perda de clareza nos limites que sustentam ou estruturam a coesão social apontam para uma preocupante tendência à intolerância e, até mesmo, ao ódio.

Como julgamos que a Escola é o lugar da construção de conhecimento, reflexão e debates, realizaremos na ESPM, na próxima quarta-feira dia 22 de outubro, a Palestra Mídias Impressas durante as Eleições 2014”, ministrada por mim, em parceria com o Professor Pedro de Santi. A proposta é fazer uma leitura Semiótica e Psicanalítica da representação dos principais candidatos à presidência da república em 2014, nas capas das mídias impressas de maior circulação do País.

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Abordar ou estudar certos fenômenos, no nosso caso a midia impressa (jornais e revistas), em seu aspecto semiótico é considerar seu modo de produção de sentido, ou seja, a maneira como provocam significações, suas interpretações, sabendo que, interpretar uma Obra (uma peça publicitária, uma matéria de jornal ou uma revista ou mesmo suas capas, um filme, um quadro), não consiste em tentar encontrar ao máximo uma mensagem preexistente, mas em compreender o que esta mensagem provoca de significações possíveis. Nas imagens, o rosto, os olhos, as mãos são representações sígnicas (“textos”) que comunicam, informam, significam.

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A semiótica, nos ajudaria a “ver” o que um “texto” diz e como ele é estruturado para dizer o que diz. É bom lembrar que na Europa já existem consultores em publicidade que se utilizam dos conceitos semióticos para prestar serviços às agências de publicidade, ajudando seus clientes a alcançarem a melhor comunicação entre seus públicos, respondendo às “velhas” questões: o que dizer (mensagem); como dizer (código); quem deve dizer (canal).
Nesta época de aridez (em todos os sentidos) onde o ódio gerado pela diferença de pensamento acaba por afastar o ser humano de seu semelhante, acreditamos que só diálogo democrático bem argumentado é capaz de oxigenar corações e mentes; a referida Palestra é a nossa pequena contribuição para que esta troca efetivamente aconteça e o ódio dê lugar ao afeto.

IMG_0245João Carlos Gonçalves (Joca)
Doutor em Linguagem e Educação pela USP; Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor de Fundamentos da Comunicação e Semiótica Aplicada na ESPM.


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Do ensino à aprendizagem

No último dia 14, estive em Campo Grande (MS) para participar do Ciantec ’14, Congresso internacional em Artes, Novas Tecnologias e Comunicação. Fui a convite do organizador e colega professor da ESPM, PC Mello, para apresentar o projeto Painéis ESPM, que temos desenvolvido há seis meses. Começamos pela Flip e agora estamos trabalhando a Bienal de Artes de São Paulo, com um grupo de alunos de todos os nossos cursos, em busca de uma análise a partir de cada perspectiva e de um mergulho na própria experiência de refletir, propor e descobrir as interfaces e diferenças entre os cursos. No blackboard, é possível ter acesso aos resultados do Painel ESPM/Flip.

Ao longo da tarde quente (ainda mais que a de São Paulo), no belo MARCO (Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande), educadores de diversos lugares e dedicados a momentos diferentes do ensino debateram sobre a aprendizagem na contemporaneidade.

Foi possível perceber o quanto os desafios de base são os mesmos que temos procurado enfrentar aqui: como fazer funcionar melhor o fluxo entre o que se ensina e o que é aprendido. A finalidade de todo o processo educativo é, naturalmente, a aprendizagem e nenhuma instituição de ensino e seus professores podem se acomodar na ideia de que “nós ensinamos, se eles aprenderam ou não é problema deles”. Isto, em geral, com certo ressentimento pelos alunos. Esta ideia é simplesmente equivocada: não se ensinou se nada foi aprendido. Dar aula é dar aula para alguém e é perceptível a saturação de métodos tradicionais, cada vez mais incapazes de chegar perto dos alunos. Um conhecimento transmitido assim, não faz sentido, não se torna apropriado por eles e, assim, não pode ser aprendido.

Vemos com mais frequência a compreenssão de que a aprendizagem é relacionada a isto: a possibilidade de fazer sentido. Para isto, é preciso que haja menos imposição dos programas prontos e de que determinados conteúdos tenham que ser administrados em cada disciplina. Compreende-se que o tempo e a forma da aprendizagem é variado entre as pessoas. Isto deriva para as formas mais variadas de se ensinar e avaliar o que foi aprendido.

O desafio é muito grande: administrar as expectativas da educação e do mercado, sob a forma de um “perfil do egresso” de cada curso; e a percepção de que é preciso construir o conhecimento dando o tempo e o espaço para que ele amadureça consistentemente. As tarefas parecem contraditórias: nosso trabalho é construir as pontes.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.

 


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O ódio que corre nas redes II. As eleições

Retomo o título que dei a um post há pouco mais de um mês. Naquele ocasião, tratava do aplicativo Secret e da onda de usos ofensivos que estavam sendo dados a ele.

Volto agora ao tema para falar de outra onda de ódio na redes: aquela que se seguiu à divulgação dos resultados das eleições, de domingo para segunda-feira.

A explosão foi tamanha que, como reação, começou a circular o post da imagem, além de outros do gênero.:

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‘Amar’ vem em fonte maior, como reforço sobre um fundo negro que evidencía contra o que o amor deve se afirmar.

Na segunda de manhã, inúmeros posts explodiam de raiva do resultado das eleições. A frustração pela dissonância entre os próprios votos e o que resultou das urnas. Comentários chamando os eleitores de irracionais, ignorantes, merecedores das piores consequências. Era impossível se conformar com o que se evidenciava como escolha coletiva.

O ódio era muito primário e infantil: a não aceitação dos resultados de uma eleição num Estado democrático; a ideia de se eu não entendo a razão pela qual o outro age, considero que não haja razão. Houve até quem dissesse que o país deveria trocar de povo.

Parece que a democracia só é legal quando elege nossos candidatos.

Um paradoxo notável é que boa parte do repúdio dizia respeito à eleição de figuras nefastas conhecidas pela intolerância e ódio ao outro: figuras assim eram os deputados mais votados do país.

É claro que há diferenças ideológicas e de valores entre as personagens envolvidas mas, naquele momento específico e naquela tonalidade afetiva específica, os que atacavam a eleição de gente intolerante se igualava a esta mesma gente. E usava o mesmo argumento: o “outro não é gente”.

E o patrulhamento ideológico se espalhou. Eu mesmo acabei fazendo um post comentando isto e, acho, perdi alguns amigos.

Além disto, restabeleceu-se na eleição para presidente a polaridade entre PT e PSDB, no melhor estilo torcidas fanáticas de times de futebol. O segundo turno tem um potencial grande para esta mesma relação primária.

Como a eleição é para o governo federal, tudo pode ser reduzido ao plebiscito: amor ao PT, ódio ao PT; ou Norte/nordeste x Sul/Sudeste; ou pobres x ricos. Todas estas, formas muito pobres e primárias de se relacionar com a importância do voto democrático.

Tudo indica que a gente não sabe discordar e discutir: ficamos na explosão do ódio pela diferença, ou nos refugiamos num amor incondicional defensivo, que nega estas mesmas diferenças.

As eleições assim, despertaram camadas de ódio e frustração acumuladas. Elas têm estado lá e sido constantemente alimentadas. Em alguns momentos específicos, explodem. A pergunta mais importante é sempre aquela sobre a origem de tanto ódio.

Há outras modalidades de ódio mais silenciosas. Refiro-me ao repúdio ao processo como um todo daquele contingente de cerca de 30% de abstenção. Mesmo imaginando que haja alguma defasagem de cadastro de eleitores e muita gente more longe de seu domicílio eleitoral, é muita gente. Os 42% de votos de Dilma e os 34 % de Aécio referem-se aos votos válidos; eles representam muito menos relativamente a população como um todo.

É a tal crise da representatividade que elege Tiriricas, usa qualquer meio mercadológico para chegar ou se manter no poder, nos deseduca e afasta cada vez mais do processo político.

Post Scriptum: na esteira de notícias tristes, delirantes e surreais, leio à que um grupo de médicos está pregando a esterilização dos nordestinos, eleitores preferenciais do PT. A guerra está declarada e ela vai no coração da informação. Notícias reais e plantadas vão se embaralhando e perdemos o critério de realidade.

Segundo as últimas pesquisas, Aécio está à frente de Dilma nas intenções de voto para o segundo turno, mas pela margem de erro, a Marina ainda tem chance… Serão duas semanas duras.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.

 


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As fantasias confessas de Fidelix

Causou furor nas mídias sociais durante esta semana a resposta do candidato à presidente Levy Fidelix sobre a questão da união entre homossexuais, num debate.

Parte das discussões considera que ele falou aquelas baboseiras para aparecer- como o faz neste texto- e que seria melhor ignorá-lo. Apesar da reação, muitos pensam que ele ganhará muitos votos com a batatada que, afinal, representa a posição de uma parcela conservadora e significativa em nossa sociedade.

Além dos equívocos simplórios deste tipo de discurso, como confundir homossexualidade com pedofilia, é notável como ele mostra ignorar o mais básico sobre a sexualidade humana ou sobre o respeito devido à nossa diversidade.

Mas, como psicanalista, o que mais chamou minha atenção foi a fantasia revelada pelo próprio, talvez também típica: a de que se passarmos a ser liberais na relação com a diversidade sexual, aumentaria muito o número de homossexuais. Fantasia reveladora de uma idealização e grande temor com relação a potência daquilo que se tenta conter. Daí aquele clichê (bem razoável) que diz que o homofóbico esconde desejos inconscientes homossexuais. Ele só pensa “naquilo” mas, por não admitir que a perturbação que sente a respeito seja um desejo, defende-se invertendo o sinal para uma ideia fixa de aversão.

Faz parte do discurso obsessivo guardar uma fantasia com o seguinte formato: eu não posso começar a… senão já não conseguirei parar e vou me destruir com isto. Pode se tratar de beber, roubar, dizer o que pensa, relaxar, usar drogas, fazer sexo: mas há sempre o fantasma da necessidade de se manter o controle absoluto, sob pena de ser levado irresistivelmente pelo desejo.

Nossa prática clínica sugere que o que mantém a fantasia da onipotência do desejo e o medo dele é justamente seu caráter contido e reprimido. Uma vez que estes desejos ganham expressão, eles costumam deixar de amedrontar e se mostram menos potentes e destruidores do que se temia. Ou seja, é a própria repressão que cria seus demônios.

É comum que um obsessivo, ao longo de sua análise e ao se permitir a expressão de alguns de seus desejos, diga coisas como: “Mas era só isso? Eu me contive tanto por tanto tempo à toa, não era tão terrível assim?” Isto gera um misto de alívio e decepção.

Certamente, a naturalização no trato das diversidades do desejo traria para nossa vida social muito mais tranquilidade para lidarmos com nossos próprios desejos. Provavelmente, não haveria mais homossexuais, mas sim menos violência.

Às vésperas da eleição, isto vale também para o medo de que tal ou qual candidato seja eleito ou de que o meu não o seja.

 

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.

 


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75 anos da morte de Freud

No último dia 23 de setembro, completaram-se 75 anos da morte de Sigmund Freud.
O que teria isto a ver conosco, ainda?

Um pensador que nos diz, entre outras coisas, que viver é trabalhar conflitos; que somos movidos por desejos narcísicos, sempre frustrados; que nossa sexualidade é perturbadora e não está a serviço da reprodução, configurando-se de forma extremamente diversa. Bem, este é um pensador que fala conosco hoje.

Há dois filmes importantes sobre a vida Freud. Um Chamado Freud (1960), de John Huston. O roteiro foi feito inicialmente pelo filósofo Jean Paul Sartre. Mas como o filme resultaria em 8 horas, houve uma briga entre Huston e Sartre e ele se retirou do projeto, de modo que seu nome sequer aparece nos créditos. O roteiro integral de Sartre foi publicado, inclusive em português. Uma das melhores coisas do filme é a atuação de Montgomery Cliff, que encena um jovem e perturbado Freud. O filme acaba quando Freud teria cerca de 40 anos e acabava de firmar as bases da psicanálise.

O outro filme importante é Um método perigoso (2011), de David Cronemberg. Mais improvável que sua direção, são as atuações sensacionais de Viggo Mortensen, como Freud, e Michael Fassbender, como Jung. Este já encontra um Freud maduro, cerca de 10 anos depois de onde parou o outro.

Reconhecido como um dos maiores pensadores do século XX, Freud preserva seu valor exatamente por sustentar um discurso de Ciência Humana, focado na experiência humana e distante dos laboratórios e do modelo de ciência positivista, para o bem e para o mal.

A psicanálise é, sobretudo, clínica e teoria da cultura. Numa época em que volta a ser moda (como no século XIX) a tentativa de reduzir o comportamento e a mente ao cérebro e à química, a psicanálise ganha um valor político e ético.

Ela investe na singularidade do sujeito e de seu desejo, de modo a também recusar práticas normativas ou normalizantes. Um sintoma não é aquilo de que sua mãe, professor ou namorada reclamam em você; mas aquilo que você estranha em você mesmo. Uma estranhesa que nos habita.

Nenhum pensador levou tão longe e à sério esta percepção. Ele se afasta do pensamento simplista que opõe razão e emoção, e mostra como elas se implicam. Não há razão pura ou neutra, ela é sempre atravessada pelo desejo; nosso desejos, por sua vez, tem também sua racionalidade, estranha à lógica adaptativa. Não temos auto-controle, mas também não somos irracionais: apenas, há racionalidades distintas.

Naturalmente, a psicanálise é frustrante a quem esperar dela receitas ou categorias para prever e controlar comportamentos. Afinal, o trabalho dela é justamente denunciar e recusar tais ilusões.

Quem estiver atrás delas (receitas ilusórias), sempre encontrará um livro pseudo-científico para vender auto-ajuda, receitas para se tornar líder, fazer campanhas de sucesso e coisas afins.

Hoje, pensadores como Freud são importantes não só por suas teorias, mas pelo que representam de vida inteligente e respeito pelas contingências da vida.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.

 


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As falácias retóricas

“Nove a cada dez dentistas recomendam Colgate/Oral-B/Sorriso.”

Estamos mais do que acostumados a essa famosa frase ao final dos comerciais de creme dental. Mas a partir do momento em que todas as marcas usam esse argumento, qual diz a verdade? E até que ponto ele possui algum fundamento?

Diariamente utilizamos e somos vítimas de argumentos falhos. E muitas vezes sem perceber.

Montamos discursos baseados no senso comum, nas emoções, na violência… e acabamos nos esquecendo de nos basear simplesmente na verdade, em algo que possa ser comprovado. Esses argumentos são chamados de falácias retóricas.

Uma das falácias mais comuns é o apelo à autoridade anônima, que pode se confundir com o apelo duvidoso à autoridade. A primeira se refere a uma crença que parece ser baseada em algum estudo e é utilizada como verdade, como quando sua avó diz que, ao tomar banho após o almoço, você vai morrer.

Ou quando Silas Malafaia diz “Ninguém nasce gay. Não existe ordem cromossômica homossexual. Não existe gene homossexual. Existe ordem cromossômica de macho e de fêmea. Vamos às pesquisas, 46% dos homossexuais foram violados e violentados quando crianças e adolescentes. Esses 46% passaram a ser homossexuais depois de serem violentados.”

Já a segunda diz respeito a algo que foi dito por um suposto especialista. É o caso da pasta de dente.

E quando dizemos que o novo celular lançado é muito superior ao anterior? Estamos cometendo um apelo à novidade ao deduzir que, por ser mais novo, é melhor. Como na propaganda do novo Iphone.

Uma situação comum é quando juramos que não fomos traídos por simplesmente não conseguirmos aceitar a verdade. Nesse caso, estamos apelando às consequências de uma crença.

São tantas as falácias, que elas até podem ser até conferidas num simpático infográfico do projeto “Information is Beautiful”. Mas, provavelmente a mais cometida, a mentira é uma das maiores manipulações que podem ser feitas com argumentos falhos. E pior, é totalmente consciente.


Tim Burton, gatos e gosto musical duvidoso.


Por um toque na aura do efêmero

Na semana passada, tivemos o evento anual de lançamentos da Apple. Steve Jobs tornou esta data num grande acontecimento: uma grande excitação sob a expectativa do lançamento de um produto revolucionário. Apesar de não termos mais o carisma de Jobs e, em geral, lançamentos que são variações do mesmo (como aconteceu no último dia 9), a aura parece perdurar, residualmente.

As tradicionais filas de consumidores se formaram antes mesmo de se ter clareza sobre o que seria lançado. O que faziam eles lá, então? Alguns, queriam aparecer ao serem entrevistados por estarem ali, prontos para passar dias na fila. Mas eu arriscaria dizer que eles queriam mesmo participar e tocar na aura no novo: o efêmero que, ao menos por algumas semanas, os tornariam distintos, exclusivos, membros de uma elite em meio ao mar amorfo do mundo do consumo de massa. Em pouco tempo, os produtos serão acessíveis a cada vez mais consumidores e sua posse já não produzirá este efeito. E então os produtos, em geral sub-utilizados, serão descartados, independentemente de sua funcionalidade: não é propriamente seu uso que está em jogo no ato de consumo, mas sua participação na experiência do novo.

A massa dos consumidores, por sua vez, torce pela saída dos modelos novos com a esperança de que os modelos anteriores tenham seu preço rebaixado e se tornem mais acessíveis.

Os que aspiram ao mundo do acesso, almejam ser incluídos e serem iguais aos que já lá estão; os que já se consideram incluídos, buscam sua singularidade dentro do grupo. O acesso ao lançamento produz de forma fugaz esta sensação.

Uma semana depois, não se fala mais no assunto e um site de viagem brasileiro oferece como brinde para seus pacotes para New York um I-phone 6. Já.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.

 


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