Categoria: Comportamento

A Freud do Freud no Doodle do Google

Na última quarta-feira, dia 03 de dezembro, o Google fez uma homenagem talvez obscura à maior parte das pessoas. A homenageada era Anna Freud (Viena, Áustria, 3 de dezembro de 1895 — Londres, 9 de outubro de 1982)

Ela foi a sexta e última filha de Sigmund Freud. Tudo leva a crer que foi também sua favorita. Ela se tornou também psicanalista e foi uma das pioneiras da psicanálise com crianças (ao lado de Melanie Klein).

Anna Freud foi uma importante teórica e é autora de um clássico: O ego e os mecanismo de defesa, de 1946. Nele, levava ao extremo algumas considerações de Freud sobre os limites do alcance de uma análise: é como se a análise só pudesse alcançar as camadas mais superficiais da mente, no ego. De modo que o trabalho deveria de fato se centrar nele. Isto parece a muitos uma importante perda do foco no inconsciente.

Mas talvez Anna seja mais lembrada por alguns episódios biográficos, ao lado e à sombra de seu pai. Um dos pacientes de Freud, conhecido como o “O homem dos ratos”, fazia referências à bela mocinha que esporadicamente encontrava ao entrar no consultório, o que certamente gerou muito assunto transferencial e contra-transferencial.

Anna Freud não se casou, apesar do interesse persistente de Ernst Jones, um dos primeiros e principais seguidores de Freud. Ela se tornou aquela figura clássica da filha devotada ao pai, que renuncia a uma vida própria; e se vê sozinha depois da morte do pai. É sempre bom lembrar que quem faz psicanálise não se livra do complexo Édipo, mas sim de sua vergonha ante ele.

Mas o momento mais marcante desta biografia são os anos finais de Sigmund. Em 1938, a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista. Com a iminência disto, muitos judeus anteciparam seu exílio. Mas Freud subestimou o antissemitismo vienense e acreditou que haveria resistência. Não só não houve, como ele, já aos 82 anos e com um severo câncer, presenciou pilhas de livros seus sendo queimados diante de sua casa e, muito pior, a prisão por um dia de Anna Freud, pela Gestapo.

Com isto, decidiu-se a se exilar, o que só foi possível graças ao fato de já ser uma celebridade e por ter contato com a ajuda (sob a forma de subornos) da princesa grega Marie Bonaparte, sua paciente. Freud, sua mulher e filhos se exilaram em Londres, onde ele viveu por mais um ano.

Anna foi então a filha zelosa, dedicando-se integralmente ao pai. Foi com ela e com o seu médico, Mas Schur, que Freud combinou que sua vida só deveria ser mantida até certo limite. Num certo dia, sem já poder falar e em grande sofrimento, Freud acenou com os olhos para Anna; ela e o médico entenderam e passaram a administrar doses maiores de morfina, até que ele pudesse repousar definitivamente um dia depois. Para a filha amorosa, esta deve ter sido a maior prova: deixar o pai partir.

A partir de então Anna engajou-se no movimento psicanalítico, que havia migrado quase inteiramente para Londres. A vienense Melanie Klein já morava lá há anos e as duas travaram uma luta intensa sobre o legado de Freud e da Sociedade Internacional de Psicanálise. Disto nasceu a “era das escolas” na psicanálise. No meio da briga, apareceu um grupo independente, encabeçado por Donald Winnicott. Do outro lado do Canal da Mancha, Jacques Lacan avançava com sua própria Escola francesa. Estava cravada a segunda geração da psicanálise.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.    

 


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Dramas de um executivo em uma empresa familiar

Certa vez, ao ser contratado por uma agência de propaganda de gestão familiar, percebi o forte desejo do proprietário em profissionalizar sua equipe. Ele, com idade já avançada, conhecia seus paradigmas e pedia minha ajuda para superá-los. Devo confessar que fiquei extremamente lisonjeado com a missão e me dediquei, de corpo e alma, a gerar resultados positivos para legitimar os próximos passos que adviriam. Entretanto, o que não percebi, foi o movimento paralelo dos filhos deste empresário. Já cursando a faculdade, também tencionavam entrar para a empresa e colaborar para os seus futuros destinos profissionais. Cada qual tinha uma referência e um modelo na cabeça, os quais não foram revelados devido a um propósito mais nobre. Ambos, emocionalmente, passaram a utilizar seus trabalhos e crescente dedicação como um resgate da relação pessoal com o pai, de certa forma distante desde o seu divórcio. Em menos de três meses a família, resgatada e renovada, mostrava novas forças e minha gestão profissional sucumbia. Os filhos, envolvidos na trama emocional que o trabalho passou a representar, enciumaram-se da minha intimidade e poder junto a seu pai. E teve início, então, meu processo de fritura lenta e gradual.

Deste período, onde questionamentos e aprendizados importantes experimentei, compreendi que o jogo em uma empresa familiar é estimulante e pesado, tal como em empresas com outra forma de gestão. Mudam somente os contornos. Por exemplo, no desenvolvimento de projetos e sua posterior implementação, o executivo deve atentar para a visão mais especialista e, ao mesmo tempo, holística possível – sem esquecer do foco naquilo que realmente rege os interesses estratégicos da companhia em questão, os anseios do grupo familiar. Observem que, por se tratar de uma empresa familiar, olhamos com um certo desdém para essa consideração aos desejos do dono. Mas será que não é isso que muitas vezes também fazemos com os interesses dos C.E.O.’s? O jogo político é tão pesado quanto em qualquer outra empresa, exceto pelo fato de haver muito afeto e emoção nas disputas ali realizadas. Logo, é fundamental observar o histórico das relações familiares para entender as posições atuais e as futuras.

Por mais estratégicos, competitivos e integrados que possam ser os projetos propostos por executivos que compõem a família, há certamente uma carga emocional que puxa para a visão pessoal que cada qual tem para o futuro da empresa. E o veto ou a concordância do profissional contratado pode ser interpretado como estar aliado à uma eventual facção. Não que se recomende intencionalidade, mas o executivo deve ter consciência dos resultados de sua posição. Isenção completa das relações afetivas da família é fundamental. Mas não se relacionar é, também, muito perigoso. Evite tomar partido ou se envolver diretamente nos processos de foro íntimo, que só dizem respeito aos próprios membros do grupo familiar. Não é ruim preservar sua idoneidade. Em casos de reuniões que descambem para rusgas, é prudente pedir licença e retirar-se, de forma estratégica. Empreendedorismo , network, marketing pessoal, informação, enfim, todos os atuais temas sugeridos aos executivos permanecem válidos neste caso. Mas o sucesso na empresa familiar depende primordialmente de dois aspectos: do trânsito exclusivamente profissional diante das questões familiares e da capacidade de ser, em certos momentos, o elo entre esta realidade emocional e o mercado, de onde poderá filtrar oportunidades com a isenção das expectativas regidas pelo afeto.

Por fim, por mais que sua posição seja percebida como importante, por mais que os gestores lhe atribuam valor e que você tenha construído a sua rede de informações e de relações políticas, nada, mas nada vai se comparar ao café da manhã em família, do qual você não é personagem e nem convidado. E é lá que muitas das decisões são tomadas. Ou situações não-racionais acontecem, e acabam por se refletir diretamente nas decisões posteriores. E com esse fato você terá de lidar, da mesma forma que, com total competência, desempenha suas funções profissionais. Vale ressaltar que, ao ser fustigado pelas ansiedades de viver um processo como o descrito acima, não é culpa sua não fazer parte da família que gere a empresa. Mas é sua total responsabilidade a habilidade de transitar em um ambiente tão peculiar, que um dia fez seus olhos brilharem por todas as perspectivas e possibilidades ali contidas. Ainda que sem a intimidade do café da manhã.

 

foto-paulo-cunhaPaulo Cunha
Experiência profissional como: publicitário em agências de propaganda (22 anos), docente (15 anos) e psicanalista (dois anos). Doutorando em Comunicação pela ESPM-SP. Formação em Psicanálise pelo CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos). Mestre em Comunicação. Especialização em: Formação de Professores para o Ensino Superior em Marketing. Graduação em Comunicação Social. Áreas de pesquisa: pensamento estratégico, comportamento humano e cinema. Autor do livro “O cinema musical norte-americano – história, gênero e estratégias da indústria do entretenimento” e Coordenador do curso de Comunicação Social da ESPM/SP.

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E aí, aproveitando a Black Friday?

Como diz o José Simão: “tudo pela metade do dobro!”.

Neste ano, tudo indica que vai haver uma fiscalização maior com relação às ofertas da Black Friday. Esta tradição americana que o mercado brasileiro importou há pouco tempo encobre artifícios das empresas para desovarem estoque encalhado e liberar as prateleiras para as vendas de natal. No ano passado, em muitos casos identificou-se o falseamento de preços. Nas semanas anteriores à data, preços eram aumentados para, então, no dia da promoção basicamente voltarem ao preço anterior, criando uma falsa sensação de desconto.

Mas a Black Friday também envolve mecanismos mentais acionados pelos próprios consumidores para se permitirem aquelas pequenas indulgências pelas quais estão sempre à espera. Nosso consumismo cotidiano também tem seus artifícios para liberar nosso anseio pelo prazer das compras.

Um destes mecanismos é chamado pela psicanálise de ‘recusa’. Ela opera uma espécie de cisão na mente. Uma informação se apresenta à nossa mente: levá-la a sério desencadearia uma série de reações. Quando estas reações resultariam em algo extremamente desprazeroso e que nos levaria a renunciar a algo que queremos muito continuar a fazer, pode-se acionar a recusa: ela funciona com o enunciado: “eu sei, mas mesmo assim…”. A informação não desaparece de nossa mente, mas ela é desqualificada, isolada e nosso desejo se permite simplesmente ignorá-la em sua busca de prazer imediato. Desaparece assim a culpa, a vergonha ou o constrangimento pelo ato de realização de desejo, ao qual não queremos renunciar, afinal.

Dificilmente um consumidor escolado- como quase todos nós- desconhece o discurso publicitário e seus recursos de persuasão; dificilmente alguém acreditaria de forma ingênua nas “oportunidades” da Black Friday. Mas muitos de nós estamos prontos para aproveitar o álibi nos auto-justificarmos, felizes, com as incríveis vantagens e verdadeiras economias que podemos obter hoje.

Então, pare de ler a já às compras!

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.    

 


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Perceber a vida

Sentada em sua bergere, livros à volta, laptop aberto, janela à frente, ela mais uma vez se perguntava o que não compreendia. Passou a vida tentando responder e se esqueceu de viver. Mas nem agora, lúcida, forte e extremamente inteligente, conseguia realizar que a resposta estava na sua atitude diante dos fatos e da própria vida. Na esperança de que a antevisão pudesse protegê-la, orientava sua atenção para os sinais prévios do inesperado.

Ironicamente, era forte. Mas temia a dor… porém, quem gostava? Era absolutamente perspicaz, mas não percebia que estar viva era um risco e que lidar com as situações não significava amaldiçoa-las. A energia é um rodamoinho. Se falar do mal, é o imã que ele espera para se aproximar de você. E assim ela sempre viveu. Com o amor mais profundo e sincero do mundo, e com o maior medo de sofrer por ele. Doeu-lhe, sim, a vida. Dor não se compara, se guarda. Entretanto, que vida já não teve lá a sua dor?

A dor que sentira na perda das pessoas amadas era insuportável, ainda hoje, tantos anos depois. Fosse culpa, talvez, por sua inteligência privilegiada não encontrar forma de preservar esses amores. O fato é que não via sentido no ter e perder. Seu coração latejava ante a falta do afeto, do afago, do afã de quem amava, das bocas beijadas, das mãos carinhadas, dos cheiros dos jantares, dos sons das conversas entabuladas ali naquela mesma sala, anos antes, no apartamento recém comprado, naquele bairro de Higienópolis. Era essa a idiossincrasia que não compreendia… vida e morte, ter e perder, amor e distância. Tivesse ela duzentos anos, não compreenderia. Ou melhor não aceitaria. Por isso, preferia ficar cercada por seus livros, onde a vida permanecia num eterno durante. E seus personagens podiam ser tocados na textura das páginas, para sempre. Vidas, caminhos, gentes. Para sempre. Sem surpresas, sem dor, sem adeus, sem respostas.

Irônico mesmo era ela não perceber a brisa que invadia sua sala todas as tardes. A brisa das janelas abertas para a Praça Villaboim. A brisa que roçava a pele de seu rosto como um carinho, há tantos anos. E que nesta brisa havia um toque do eterno, que trazia cada mão e cada amor de sua vida. Numa eterna relação de continuidade, proposta maior do que se constrói em vida. E que ela não poderia ver pela razão, somente sentir se estivesse aberta, inclusive à dor.

Na brisa da Praça Villaboim, seu passado, seu presente e seu futuro. Ou achava ela que a eternidade nos tocaria de outra forma?

foto-paulo-cunhaPaulo Cunha
Experiência profissional como: publicitário em agências de propaganda (22 anos), docente (15 anos) e psicanalista (dois anos). Doutorando em Comunicação pela ESPM-SP. Formação em Psicanálise pelo CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos). Mestre em Comunicação. Especialização em: Formação de Professores para o Ensino Superior em Marketing. Graduação em Comunicação Social. Áreas de pesquisa: pensamento estratégico, comportamento humano e cinema. Autor do livro “O cinema musical norte-americano – história, gênero e estratégias da indústria do entretenimento” e Coordenador do curso de Comunicação Social da ESPM/SP.

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A Anti-Barbie

Mostrando mais uma vez o poder do crowdfunding, chegou oficialmente ao mercado a boneca Lammily.

Como um contra-ponto ao modelo de “perfeição”(sic) da Barbie, a boneca apresenta medidas realistas e características que são presentes em qualquer mulher de verdade.

A boneca pode ter uma pintinha, uma tatuagem, óculos e até espinhas… E mais do que isso, os acessórios da boneca refletem a vida de uma pessoa normal. Ir ao mercado e à academia são atividades que todos fazemos (no meu caso, a academia eu tô devendo).

No vídeo abaixo vemos uma Lammily sendo “Barbierizada” (desculpa o trocadilho. Mas esses padrões são uma barbárie).

Essa boneca é um grande passo para que quebremos estereótipos que começam a ser formados desde cedo na cabeça das crianças e, se o modelo de perfeição é um bando de loirinha aguada em cima de um salto quinze, damos graças a deus que a maioria é imperfeita, não?

E o melhor: As crianças parecem gostar do brinquedo! Veja no vídeo a seguir.

Para mais informações sobre a boneca, clique aqui para visitar o site oficial.

 


Sai sempre de casa com uma palheta, uma câmera e um livro.


Inspiração x Obrigação

Mac Premo é um artista. Ele faz e sempre fez arte convivendo com todas as inquietações e inseguranças que a arte traz consigo.

Nesse mini-documentário feito por Bas Berkhout (filmado e editado lindamente, diga-se de passagem) vemos a luta de um artista com sua existência, com as contas que continuam chegando e sua fascinação com, nas palavras de Belchior, “a única amiga e a única certeza da vida”: a morte.

No meio de tudo isso, o artista mostra como ele alia suas criações e seus processos criativos com as obrigações de um pai de família e também de quem precisa cuidar das despesas da casa. Ele afirma que quando “não tem muito o que fazer”, acaba se questionando: “Hm… Fazer arte está ótimo, mas eu preciso muito ganhar um dinheiro. E em outros momentos estou cheio de trabalho e preciso voltar para a arte. É um balanço, para mim, eu preciso fazer arte.”

Mas, para este que vos escreve, a melhor fala de Mac é a seguinte: “Sempre me disseram o quão talentoso eu era… Isso é legal de se ouvir mas é uma m$%#@ porque não é um pagamento.” Não é possível viver de elogios.

Abaixo o filme completo:

Um pouco sobre o artista pode ser conferido em seu site oficial. A seguir algumas obras do artista:

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Sai sempre de casa com uma palheta, uma câmera e um livro.


Dê abrigo a um artista

Bieke Depoorter é uma fotógrafa que descobriu um jeito criativo e inusitado de criar seus trabalhos: Ela esteve vagando por cidades dos E.U.A., Rússia e Egito pedindo para desconhecidos se poderia passar a noite em suas casas. E por incrível que pareça, muitos deles disseram que sim.

O resultado é incrível. A fotógrafa belga consegue captar a atmosfera e o comportamento no cotidiano de seus “modelos”, fotografando-os em seu “habitat natural”, por assim dizer.

Ela diz: “Eu acho que parte das pessoas me deixam entrar porque sabem que vou embora no outro dia. Muitas vezes é mais fácil compartilhar intimidades com alguém se você sabe que nunca mais vai vê-la.”

Abaixo, algumas fotos desse ensaio:

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Com uma situação parecida a artista Amanda Palmer fala sobre suas turnês com a banda The Dresden Dolls em que ficava na casa de fãs, que recebia o que comer deles e como pode ser uma boa confiar nos outros, contar com eles.

Abaixo, o TED completo. E você, abriria as portas para um desconhecido?


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ECHO – A invasão dos Robôs

Os alertas já estavam aí para todos; Isaac Asimov já alertava para os perigos da evolução da Inteligência Artificial, principalmente no que tange à própria segurança humana: o computador pôde perceber o que todos nós nos recusamos a enxergar, que o maior perigo para a espécie humana é, justamente, ela mesma.

Outros grandes nomes da ciência também apresentam seus receios acerca dos avanços em tecnologia, como é o caso de Stephen Hawking, que acredita que uma IA rapidamente ultrapassaria a inteligência humana, ao aprender a se melhorar e multiplicar indefinidamente.

Um cenário ao estilo da trilogia de Matrix ou da série Exterminador do Futuro, com homens lutando bravamente porém quase inutilmente contra as máquinas, seria um possível resultado.

A verdade no entanto, pode ser um pouco frustrante para os ávidos pelo combate. O novo produto da Amazon, Echo, é o equivalente ao Siri para a casa toda. De qualquer cômodo é possível acessar suas funcionalidades apenas com comandos de voz.

Tocar músicas, fazer pesquisas, usar de despertador e até mesmo soletrar são algumas das tarefas que podem ser realizadas ao simples comando vocal.

Ao assistir o vídeo, que apesar de parecer um avanço inimaginável ou até inacessível custará meros 199 dólares nos EUA, todas as esperanças de uma humanidade forte, organizada e unida contra as máquinas vai para o ralo.

Fica o sentimento de que o domínio será mais sutil e mais rápido, de natureza intelectual. Deixaremos cada vez mais de pensar por nós mesmos e delegaremos essa árdua tarefa mental para os coleguinhas de chips e circuitos.

Quando menos percebermos, só seremos capazes de sobreviver com a expertise dos computadores ao nosso lado.

Ou será que isso já não é o que acontece?


Minha barba. Minha vida.


Um beijo para o Gordo

No início desta semana, o apresentador e humorista Jô soares fez, na apresentação de seu programa, um depoimento doído e franco sobre a morte de seu filho. O vídeo de sua fala foi bastante difundido pela internet.

 

De início, Jô foi ao ponto: ele acabava de passar pelo pior pesadelo de um pai: a inversão da ordem natural das coisas, a morte de um filho. Depositamos sobre nossos filhos um amor potencializado: reunimos nossa própria auto-estima e ideais, purificamos isto do constrangimento que costumamos sentir por nossa vaidade, e depositamos sobre eles um amor passional puro. Ouse não curtir as fotos que postamos deles, tão lindos comparados aos “cara de joelho” que são os filhos dos outros!

O que aprendemos a aguentar sobre nós, o que aprendemos a renunciar de nossas fantasias onipotentes, a autocrítica que precisamos desenvolver: tudo isto está suspenso em nossa estima sobre nossos filhos. Nosso senso de realidade nos obriga a criar uma “reserva ecológica mental” de esperança no futuro, lá quando tudo será melhor e terá valido a pena. E não há forma maior de tangibilizarmos esta esperança no futuro do que trazendo à vida um novo ser.

Uma condição especial acompanhou este filho do Jô: ele era autista. Assim, sua condição de vida trazia dificuldades maiores na direção da conquista da autonomia. O autismo tem graus e variedades de comprometimento, o que faz com que por vezes ele seja quase imperceptível a um leigo. Segundo o Jô, a condição específica de seu filho o manteve com uma mente de criança. Numa cultura que valoriza tanto a autonomia, uma condição em que ela não se dê é considerada um estigma pesado.

As preocupações que todo o pai tem com o futuro de seus filhos são bastante potencializadas nestas condições. Da descoberta de uma condição limitante à adaptação à esta nova realidade, – que frustra aquelas nossas fantasias onipotentes- há um longo caminho. E é no embate com esta frustração que pode ou não emergir num pai e mãe, para além de suas projeções narcísicas, a capacidade de amar seu filho. E o Jô dirigiu palavras de agradecimento à ex-mulher por sua dedicação ao filho que tiveram juntos.

Tudo isto tornou tão comovente seu depoimento. Além de palavras serenas e bem elaboradas, chamou-me a atenção a capacidade de simplesmente estar ali em pé, falando de uma emoção tão bruta e recente. Ao lado de tantos outros que sentiram compaixão pelo Jô, e que já o vêem há tantos anos como uma persona midiática, alinho-me numa renovada admiração por ele.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.    

 


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Stickboy: O grafite em uma ópera sobre o bullying

Na cultura popular, a ópera é considerada há muito tempo como algo chique ou seleto demais, enquanto o grafite toma as ruas como um tipo de arte popular.

Porém, as raízes do teatro musical se aproximam da arte de rua. A ideia à princípio era construir uma plataforma que debatia e apresentava temas político-sociais.

Com isso em mente, a Vancouver Opera, criou uma campanha promocional para a peça Stickboy, uma ópera sobre um garoto atormentado e transformado pelo bullying.

Para isso foram chamados os artistas Nick Gregson, Carson Ting, Ben Tour e Ola Volo, todos da cidade, para representarem seus maiores monstros interiores em murais da cidade. O filme também conta com a participação de Shayne Koyczan, artista já citado no Newronio por ter criado um poema visual sobre os trolls da internet (clique aqui para ler a matéria).

Abaixo o vídeo completo.

Todas as peças tinham a frase “There’s a Monster In All of Us”, além do link para o site www.stickboyopera.ca, onde podem ser comprados ingressos e algumas pessoas expõem suas histórias com o bullying.

O grande intuito da campanha é trazer uma audiência mais jovem para a ópera, além de conscientizar as pessoas sobre como o bullying pode ser destrutivo. Uma bela campanha para tornar esse tipo de produção artística mais popular!


Sai sempre de casa com uma palheta, uma câmera e um livro.


Top of mind conservador

Saiu na última terça-feira, dia 28/10, o caderno anual Folha Top of mind. Ele é sempre um material rico de pesquisa. Imagino que, ao longo desta semana, ele tenha sido discutido em muitos cursos de Publicidade, mas também em sociologia, psicologia, semiótica, etc..

Dentre tantas coisas a se considerar, chamo a atenção para duas. Em primeiro lugar, o grande espaço inicial reservado para aqueles que criam e cultivam as marcas: as agências publicitárias e alguns de seus nomes mais conhecidos. Há algum tempo já elas próprias são marcas relativamente públicas, para além do meio profissional específico. Na própria campanha presidencial, o responsável pela propaganda da presidente teve seu nome bastante evocado.

Outra observação diz respeito à manutenção da enorme maior parte das marcas Top of mind por categoria. Imagino que a construção de uma marca sólida a ponto de se sedimentar em nossa memória seja um trabalho lento. Ao evocarmos a primeira marca que nos vem à mente, a reposta será intuitiva, pré-reflexiva. Isto que significa: internalizada a ponto de funcionar como reflexo.

Tornou-se um Best seller em 2011 um livro chamado Thinking, fast and slow, do ganhador do Nobel de economia Daniel Kahneman (Em português, pela Editora Objetiva: Rápido e devagar).  Em linhas gerais, ele postula que tenhamos dois modos de pensamento: um rápido e outra lento. O rápido é aquele evocado na pesquisa Top of mind, baseado em nossas experiência, que criaram associações regulares, tornadas reflexas, como dissemos. Nossos pré-conceitos, como forma de dizer. O pensamento lento é reflexivo, consciente, mais elaborado e capaz de considerar variáveis atuais e se transformar. Há quem queira associar o primeiro a uma irracionalidade e só considerar racional o segundo. Mas não é assim, a intuição seria esta resposta imediata baseada em nossas experiências anteriores consolidadas; há racionalidade pré-reflexiva nele.

Não é fácil romper conexões fortemente estabelecidas e tomar seu lugar. Ao longo do tempo, vemos eventualmente marcas surgirem com força e desaparecerem e é mais raro o ingresso definitivo no naquele clube seleto.

Para quem duvidar da força conservadora da intuição, lembre-se que teremos para o governo federal e estadual dois reeleitos, sob partidos cujos números já estão incorporados na memória popular: são Top of mind, mesmo que não sejam necessariamente mentes top.

desanti Pedro de Santi
Psicanalista, doutor em psicologia clínica e mestre em filosofia. Professor e Líder da área de Comunicação e Artes da ESPM.    

 


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100 assédios em 10 horas

O movimento Hollaback!, com o objetivo de acabar com o assédio nas ruas, filmou uma mulher caminhando pelas ruas de Manhattan num período de 10 horas a fim de retratar os inúmeros assédios verbais que as mulheres sofrem dia-a-dia nas ruas da cidade (daquela e de praticamente todas as outras do mundo).

A mulher retratada é Shoshanna Roberts, uma atriz da cidade de Nova Iorque. Abaixo, o vídeo completo:

O vídeo já tem mais de 7 milhões de views e o mais chocante/absurdo/nojento é olharmos comentários do tipo “ela só foi elogiada! deveria se sentir bem com isso” ou “se fosse na Índia ela teria sido estuprada, isso não é nada” (seissoaquifosseoTexaseujátinhadadounstirosnumbabacadesses).

A seguir, alguns dos lastimáveis comentários sobre o vídeo:

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#lastimável

E depois dizem que as meninas superpoderosas da campanha da FCKH8 que são um problema, né?

Outra recente campanha denunciatória sobre os abusos contra a mulher é a recente “NO MORE”, que figura inúmeros ícones da liga de futebol americano NFL apelando pelo fim de abusos e violência contra as mulheres. Estamos em 2014 e essa história de “Ela estava pedindo!” ou “É que ele ficou irritado” não são mais desculpa. Aliás, nunca foram.

Abaixo, o vídeo completo.

E como elas mesmas dizem: Feminism is coming up your f*%$#!@ ass!


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