O Oscar 2020 aconteceu no último domingo, dia 10 de fevereiro. E como sempre as várias indicações e (não indicações) geraram polêmicas sobre os filmes lançados em 2019. A Academia tem um conturbado histórico de ser nada inclusiva em suas indicações e premiações, fato esse muito bem evidenciado pelo teor satírico de boa parte dos discursos dos apresentadores dessa edição. Sobretudo aqueles não-brancos.


Chris Rock protagonizou um discurso de abertura repleto de críticas à Academia.

E bom, 2019 foi realmente um ano de ouro na produção cinematográfica, com, por exemplo, 9 indicados (com um máximo de 10 indicados) fortíssimos ao prêmio de melhor filme. Mas é impossível negar que muitos filmes, atores e atrizes foram deixados de lado injustamente nas indicações. Segue a lista:

– Nós.

Nós., na minha opinião, é certamente o filme mais esnobado do Oscar. O segundo filme assinado pelo brilhante Jordan Peele se mostrou ser tão bom quanto, Corra!, senão melhor que. O filme brilha com a abordagem sombria sobre a temática de divisão social e dá verdadeiros nós com um roteiro complexo e cheio de reviravoltas. Merecia indicações por melhor roteiro original, melhor trilha sonora e, claro, de melhor filme. Tinha até uma vaga sobrando!

Por sinal, Lupita Nyong’o faz um (ou dois, na verdade) dos seus papéis mais complexos nesse filme, interpretando duas personagens diferentes que, por mais confuso que pareça, fazem parte da mesma pessoa. Um absurdo não concorrer a melhor atriz.

– Jóias Brutas

Essa injustiça sobre o filme produzido pelo jovem estúdio A24 e a Netflix até chegou a viralizar nas redes sociais. Joias Brutas é um filme fantástico, com um excelente uso da edição de vídeo e áudio, montando um filme extremamente frenético, barulhento e angustiante. Isso claro, sem ofuscar uma linda poesia sobre o custo do dinheiro e como isso afeta nossas vidas pessoais.

Mas talvez o maior atentado tenha sido contra o trabalho de Adam Sandler no papel principal, que mostra o seu gigantesco potencial como ator, indo para outro patamar além dos papéis de comédia-romântica que marcaram sua carreira. Merecia ser indicado como melhor ator.

– Fora de Série

Mais popularmente conhecido sob o título original, Booksmart talvez tenha sido a principal revelação de 2019, que já foi um ano cheio de surpresas. O filme inova por ser um besteirol americano super original e elogiado pela crítica, sendo que este é um gênero ainda muito estigmatizado pela academia, mesmo sendo aclamado pelo público. Principalmente o adolescente.

A produção teve importantes conquistas, como prêmio de filme independente, melhor comédia, melhor roteiro e diretor revelação para Olivia Wilde. Em um ano recheado de veteranos poderosíssimos como Tarantino, Scorsese e Sam Mendes, seria fantástico ver uma produção estreante com forte protagonismo feminino indicada a melhor roteiro original.

– Adoráveis Mulheres 

E por falar em (ou na falta de) indicadas mulheres, por mais que a adaptação do clássico estadunidense tenha concorrido ao Oscar de melhor roteiro adaptado, as duas categorias de atrizes e até melhor filme, Greta Gerwig merecia mais. A conceituada diretora de 36 anos foi excluída de uma forma muito bizarra da indicação de melhor direção, o que causou uma forte indignação na internet.

E ela merecia a indicação. Greta mostrou muito brilhantismo e excelência em dirigir um elenco estelar, com Saoirse Ronan, Florence Pugh, Emma Watson, Timothée Chamalet, Meryl Streep e Laura Dern, que venceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por História de um Casamento. Certamente um dos filmes mais emocionantes e bem dirigidos de 2019 e que, infelizmente, ficou de fora.

– Elenco de Parasita

Por mais que Parasita tenha conquistado os maiores prêmios da noite como melhor roteiro original, melhor filme estrangeiro, melhor diretor e, é claro, melhor filme, o filme também teve um elemento crucial e, de uma maneira muito triste extremamente negligenciado. Ninguém do elenco sul-coreano foi indicado a algum dos quatro prêmios de atuação.

Parasita é um filme perfeito em todos os sentidos. É muito difícil achar uma produção tão complexa como essa e o elenco é uma das suas peças mais fortes. Em meio a tantas peças fortes. Fica aqui minha indicação honorária a Cho Yeo-jeong e Park So-dam para Melhor Atriz, além de Song Kang-ho e Choi Woo-shik para Melhor Ator.

– O Farol

O Farol é outro filme da A24 que foi deixado de lado na premiação. O filme despertou muita curiosidade desde o início pela sua estética antiga, com forte influência da obra de H.P. Lovecraft: muitos chegaram a considerá-lo como o melhor filme de temática lovecraftiana já feito (o que é uma árdua tarefa, como já falamos aqui no Newronio).

E para consolidar ainda mais a atmosfera desejada pelo diretor Robert Eggers, a equipe construiu o farol que dá nome ao filme do zero em uma ilha remota em Nova Scotia, no Canadá. O filme também tem um roteiro bizarro e tenso, mas acima de tudo profundamente brilhante e original, empurrando papéis super complexos na goela de atores talentosos (Willem Dafoe e Robert Pattinson). Tendo isso em vista, as indicações por melhor roteiro original e melhor direção de arte seriam o mínimo, na minha humilde opinião.

Também não poderia faltar o destaque especial para Willem Dafoe, que tem protagonizado uma grande reinvenção artística e entrega provavelmente a melhor interpretação de sua carreira no papel do velho marinheiro coxo e carregado de monólogos, Thomas Wake. Com certeza a devida indicação ameaçaria a sequência de vitórias do Brad Pitt como melhor ator coadjuvante.

De qualquer forma, 2019 foi um ano realmente atípico, com MUITOS filmes espetaculares e não há como reverter essas injustiças. Só nos resta torcer para que o Oscar corrija os ultrajes e premie as pessoas dessa lista, que em sua maioria são bem novas e, certamente, têm muita novidade pela frente.

 

Baiano, amigão da vizinhança, ecochato, escritor amador e mestre pokémon nas horas vagas.