O livro escrito por George Orwell em 1948 ganhou uma nova edição pela Companhia das Letras e não poderia ser em um momento mais oportuno: por mais que 1984 aborde uma sociedade fictícia dominada por um governo distópico aos moldes da ditadura stalinista, a história sobre manipulação da realidade por meio da memória é exageradamente e desconfortavelmente familiar nos dias atuais.

E justamente por conta da fluidez do real no presente,1984 deve ser um dos livros mais lembrados nos últimos tempos. Mas, será mesmo? Será que essa afirmação superficial não está limitada à minha memória?

“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.” Eu não sei vocês, mas por muito tempo tive uma certa dificuldade de entender essa frase. Como alguém pode controlar o passado? Como esse passado pode controlar o futuro que ainda não aconteceu? E como esse passado que já aconteceu é controlado pelo presente?

Talvez a coleira que o presente use para guiar o passado seja a memória. E depois de assistir a um episódio do Nerdologia, consegui distinguir com maior clareza esses conceitos de Memória, Passado e História.

Será que antigamente o mundo era mesmo tão melhor como tanto repetem alguns mais velhos em um frenesi nostálgico? Essa idealização do passado é fruto da memória de quem? E essa memória corresponde a realidade?

Filipe Figueiredo articula sobre a influência da idealização do passado e o conceito de memória coletiva sobre o imaginário popular do presente. A manipulação dessa memória, focada no individual e não necessariamente na realidade de fato, ocorre por meio da criação de mitos (que mantêm a Memória, mas não representam a História e portanto não representam a realidade).

Ou seja, o domínio sobre a história, o passado e a realidade se dá por meio do que é lembrado e representado pela memória no presente

@laertegenial

E talvez uma agradável memória de tempos distantes e serenos possa servir como uma grande âncora para muita gente enfrentado crises de realidade, preenchendo assim os vazios deixados pela fluidez do mundo moderno.

A ciência e a arte explicam, vagarosamente mas cada vez mais rápido, sobre o mundo e sobre a realidade. Entretanto, ainda restam dúvidas, mitos e milagres a serem descobertos e desvendados. O desconhecido nos amedronta, e não saber como resolver uma situação, não saber como lidar com a realidade, se torna extremamente angustiante.


Tirinha de @prasergente para o @tira.rotina

E essa angústia abre possibilidade para a modelação de uma realidade. É desesperador encarar uma situação, por exemplo, na qual o mundo passa por um estado de emergência de saúde pública por conta de uma pandemia. Em questão de semanas nós vimos a nossa rotina, o nosso cotidiano, a nossa normalidade mudar drasticamente por conta do Covid-19.

É preciso tomar cuidado para não ceder ao pânico e a irracionalidade, pois assim nos tornamos alvos fáceis de soluções fáceis e irreais. Quando há um GRANDE problema, é muito tentador seguir as emoções para achar uma GRANDE solução e um GRANDE culpado. O nosso pessoal deseja fortemente que tudo dê certo, que tudo se resolva, e a nossa mente pode se limitar a essa fantasia. Por isso devemos lembrar sempre que as coisas são bem mais complexas do que parecem ser.

Vamos ficar atentos para não nos perdermos em nosso presente ao sermos fisgados por duplipensamentos. Lembre-se de 1984! Para ampliar um pouco mais a discussão e lembrar que 2 + 2 = 4, volto a recomendar um episódio de podcast, dessa vez o Nerdcast sobre 1984:

Baiano, amigão da vizinhança, ecochato, escritor amador e mestre pokémon nas horas vagas.