Que atire a primeira pedra quem não foi atingido pelo Big Brother Brasil nas últimas semanas. A vigésima edição do reality show mais popular do país foi um estrondoso sucesso, esgotando a cota de patrocínios e com números recordes de audiência. E o que resgatou o apelo do programa? Por que BBB voltou a ser tão atraente para o público? Talvez a resposta esteja ligada a outro fenômeno da internet: a cultura do cancelamento.


Participantes originais do Big Brother Brasil 20

Lembrando que o objetivo deste texto não é simplesmente “cancelar a cultura do cancelamento”, e sim discorrer sobre um uma nova perspectiva desse comportamento. Portanto resgato aqui um grande exemplo arrebatador de “cancelamento positivo”, que foi o movimento #MeToo, no qual as mulheres protagonizaram uma gigantesca denúncia global contra casos de assédio e até estupro, os quais muitos homens, infelizmente, haviam saído impunes de seus atos violentos. Mas a partir daí o jogo virou, formou-se uma grande rede de apoio a favor das vítimas, muitos criminosos foram punidos, e uma grande conscientização contra má-conduta sexual tomou conta da internet.


Protesto do movimento #MeToo na Califórnia

Voltando para o foco do texto: Penso que é extremamente apelativo para o público, acostumado com o patrulhamento da cultura do cancelamento na internet, se ver no poder de participar de um grande programa de julgamento coletivo e em escala nacional. Cria esse senso de comunidade, ao mesmo tempo que alimenta narrativas antagônicas e super intrigantes com aliados e inimigos girando em torno de um objetivo comum… É muito sedutor acompanhar essa disputa por poder, seja em No Reino dos Suricatos ou Game of Thrones. Mas no Big Brother Brasil, nós decidimos o resultado.

E cabe ao coletivo determinar o voto. Lindo e democrático esse exercício do poder popular, certo? Mas… a partir de que momento o paredão não se torna um grande linchamento? Afinal, acho que a ideia do paredão se trata literalmente de um linchamento… Até que ponto essa vigilância 24h é saudável para os participantes e, sobretudo para nós?

Não é meu objetivo aqui, obviamente, entrar em um discurso afirmativo sobre a moral, explicar conceitos psicológicos ou determinar o que é certo ou errado. Coloco-me apenas como arauto das observações e das dúvidas, mais precisamente como um cronista das fofocas de internet.

Mas tenhamos como exemplo alguns dilemas morais dessa edição do programa: Manu Gavassi é legal mas teve uma colocação racista; Babu é super lúcido, mas teve uma fala homofóbica; Gizelly é uma das mais queridas, mas tem desapontado ao participar do isolamento do Babu; Pyong mostrou puro carisma quando dançou Iza em uma festa, mas assediou participantes em outra festa; Prior diverte muito, mas era do clubinho dos machistas. Até mesmo a Thelminha, que é praticamente um consenso sobre “bom comportamento” e discursos sem preconceitos está sendo julgada por… não se posicionar o suficiente.

E aí? Quem que não é digno ou digna do cancelamento? Será que você, internauta, sofreria um cancelamento? No final, todos vamos ao paredão. E nele não adianta passar pano.


Prior e Daniel discutindo sobre o sentido da vida ou trocando farpas? Nunca saberemos…

Recentemente a Maisa Silva, uma grande queridíssima do Brasil, a “perfeita fada sensata” da internet decidiu manifestar no Twitter o que pensa sobre essa idealização da perfeição, que querendo ou não surge como uma demanda social da cultura do cancelamento. Se ninguém pode errar, então todos devemos ser perfeitos. Mas… Quem é perfeito? Pois é… somos humanos e não fadas perfeitas.

Não se tratando de crimes ou cobranças necessárias de pessoas influentes (como políticos e artistas), talvez a cultura do cancelamento atrapalhe mais do que ajuda, uma vez que serve como um esvaziamento do outro, o que torna o debate público mais superficial. Do que adianta cancelar, humilhar e linchar o seu coleguinha por usar um termo inapropriado, suprimindo assim a sua capacidade de mudança pessoal, quando você pode conversar com essa pessoa, escutá-la e tentar explicar o seu ponto de vista?

“Somos melhores quando nos apoiamos, e não quando nos cancelamos”, disse Joaquim Phoenix em seu discurso muito poderoso e humano, após a vitória do Oscar 2020 pelo brilhante papel como Coringa. Ah, e só para que não haja um endeusamento precoce, ele lembrou que também não é uma fada sensata perfeita. Ele já foi muito egoísta, duro e já errou bastante como eu e você, e isso faz parte do processo. Ele bem destaca que esse prêmio foi fruto de uma segunda chance.

Longe de mim minimizar erros, liberar a impunidade ou passar pano, a ideia aqui é sobre dar mais chances para os outros, que são pessoas como eu e você.

E para encerrar esse texto, mas ampliar a discussão, deixo aqui um episódio do Távola Podcast, onde alguns especialistas em direito e comunicação (dentre eles o professor Eric de Carvalho, daqui do Arenas ESPM) discutem com muito mais profissionalismo e sapiência do que eu sobre a cultura do cancelamento e suas consequências para a sociedade. Aproveite!

Baiano, amigão da vizinhança, ecochato, escritor amador e mestre pokémon nas horas vagas.