Eu não me considero um fotógrafo pela definição da palavra, não ganho dinheiro congelando momentos pelas ruas ou embelezando produtos e histórias por aí, mas, me considero um entusiasta da arte da fotografia. 

Depois de várias baboseiras teóricas de um certo curso de cinema concorrente da instituição que me hospeda, descobri uma ou outra coisa sobre fotografar, nada sobre técnica e muito menos alguma coisa importante, mas sim sobre a parte filosófica de uma arte que é mágica e sinistra por si só. “O que a fotografia reproduz infinitamente ocorreu apenas uma vez: a fotografia repete mecanicamente aquilo que nunca poderia ser repetido.”

De certa forma, podemos imortalizar pessoas que não estão mais entre nós, momentos que só podem acontecer uma vez e registrar o mundo para a posterioridade, além de também podermos alterar a narrativa de qualquer cena com o enquadramento certo.

Por muito tempo pensei que para brincar de congelar o tempo-espaço, precisava dos melhores aparatos possíveis, uma câmera com as tecnologias mais avançadas de geolocalização, lentes com wi-fi, tripés de fibra de carbono que servem como armas brancas caso alguém se sinta incomodado com o barulho do obturador, e claro, baterias suficientes para alimentar uma cidade em caso de apagão. 

Depois de brincar com todos esses equipamentos emprestados de outras pessoas, percebi que não sabia mexer em quase nada, e muitas vezes gostava mais das fotos tiradas com meu celular do que com o kit que custava um Uno duas portas. Confesso, desanimei bastante da fotografia, não só da minha, mas de pensar em foto no geral. Todas pareciam iguais, não importa a câmera, a lente ou até mesmo o fotógrafo, a única diferença que conseguia enxergar era que algumas eram coloridas e outras em preto e branco, e no fundo, todas eram tão reais e tristes de alguma forma.

Certo dia, estava revendo a galeria do meu celular e procurando fotos antigas, e achei algumas das minhas primeiras aventuras fotográficas, e claro, assim como não sabia fotografar, tampouco sabia editá-las, mas aquelas velhas fotografias, tiradas em um iPhone 7, com uma câmera que considerava meia boca e editadas com toda a inexperiência de um garoto de 15 anos me fizeram sentir algo “diferente”. Um sentimento que nem pensei que fosse possível sentir, uma nostalgia de algo que nunca vivi, uma nostalgia pelo físico.

A partir daí, decidi pegar essas mesmas fotos mal tiradas e mal editadas e tentar transformá-las naquilo que eu de fato nunca convivi, imagens físicas, com grão e com cores diferentes do mundo que vemos normalmente, e foi o começo para entender algo bem significativo para mim.

Quando criança, eu pouco compreendia a complexidade de uma máquina fotográfica, e até hoje não entendo, no grito, alguém parava o futebol ou o esconde esconde e pedia para dar um sorriso, uma luz forte vinha, e semanas depois outro alguém mostrava como saímos bonitos, mas eu era uma criança e poucas coisas importavam mais do que voltar para o pega-pega ou para o videogame, e com certeza, uma fotografia alaranjada e com um verde mais saturado não era uma delas. 

Pouco tempo depois, alguns tios e tias chegavam com um objeto parecido com a câmera que demorava semanas para mostrar a foto, era prateada e com aparência futurista, mas o funcionamento era igualzinho, paravam com o bets, pediam para sorrir, uma luz forte vinha, e de repente, agora podíamos ver a foto. Não era nada de super diferente aos meus olhos, a não ser, que dessa vez podia brincar de tirar foto de absolutamente tudo, aquilo que devia e aquilo que não devia. 

Mas o mundo mudou, e aquelas câmeras de 5 e 10 megapixels foram substituídas por um aparelho que faz absolutamente tudo, desde tirar fotos até permitir que você as compartilhe instantaneamente, com uma “qualidade” muito superior e com muitos mais megapixels, seja lá o que isso significar, e de repente o planeta esqueceu desses pequenos objetos, e as fotos passaram a serem todas iguais, com cores reais, formatos reais e uma profundidade de campo idêntica a nossa visão.

Até que uma new newroner, a qual ainda precisa se apresentar propriamente, decidiu gastar uns trocados em um brechó e comprar esse objeto jurássico de formato futurista, e mudou mais uma vez a visão que eu tinha da fotografia.

Toda aquela baboseira de precisar de uma mega câmera, com lentes, tripés, filtros e acessórios para captar algo no formato real, sem nenhum ruído, com uma profundidade de campo milimetricamente calculada não faz mais o menor sentido, claro, não sou nenhum profissional e apenas quero me divertir congelando momentos importantes para mim. E com um pouquinho de edição, juntando a imagem “diferente” feita pela máquina cromada, com uma tentativa de emular tempos que não vivi, me fizeram resgatar o amor pela fotografia, mas não só isso, também estão congelando momentos lindos ao meu ponto de vista, e que quero levar para toda a vida. 

Quem sabe, se um dia eu virar um senhor rabugento que mal se lembra o que comeu no almoço, essas fotografias podem me ajudar a resgatar os belos momentos que vivi, as belas amizades, as piadas e risadas que dei, não sozinho, mas com pessoas especiais que também estarão registradas dentro e fora do meu coração, em um arquivo .jpeg em algum HD que preciso me lembrar de guardar com muito carinho.

Ou talvez eu esteja falando tudo isso porque virou legal voltar aos anos 2000, o lugar onde a película e o sensor ccd se encontraram, mas de qualquer forma, eu agradeço ao Sr. Zé Niépce por ter inventado essa linda maneira de registrar esses momentos efêmeros.