Sem dúvidas um dos maiores ícones das histórias em quadrinhos é o tão adorado Cavaleiro de Gotham, o Batman.

Muitos fatores o tornam tão adorado entre os fãs e o público em geral durante os seus 77 anos de existência no universo dos quadrinhos. Seja por sua falta de superpoderes, sua genialidade, proposta mais sombria, histórias interessantes, animações e até mesmo os filmes e desenhos, o personagem criado por Bob Kane sempre teve e sempre terá espaço no mundo do entretenimento.

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Outro aspecto muito interessante é que o vigilante possui um leque de vilões muito interessante que vão desde o mafioso mais ordinário até meta humanos e grandes psicopatas. Podemos pensar que o seu grande inimigo, por conta de inúmeras histórias e filmes, seja o palhaço do crime, o Coringa, mas e se ao final do dia o grande inimigo do Batman fosse ele mesmo?

P-Gotham_718Lista de todos os inimigos

A proposta de eliminar o crime e seguir em frente nunca esteve nos propósitos do herói, claro que por se tratar de uma franquia essa premissa de derrotar o crime para sempre não seria nada lucrativa para a DC e na sociedade em geral, o crime sempre existirá assim como a maldade do ser humano. Mas, de uma certa maneira o debate sobre a sanidade do morcegão sempre esteve em discussão nos mais variados momentos e locais.

O quadrinho de 1989 Batman: Arkham Asylum, ilustrado por Dave McKean e escrito por Grant Morrisson, nos traz esse debate entre suas páginas de uma maneira sutil e com muitos simbolismos. A história se passa em um dia da mentira quando uma série de vilões do cavaleiro de Gotham tomam o Asilo Arkham e pedem para o Batman salvar os reféns. Entre as paredes desse lugar sombrio e com um passado perturbador, relevado ao longo da narrativa, o herói se depara com seus inimigos, mas todos parecem mudados e diferentes por conta do tratamento que tiveram ao longo dos anos. Ao se deparar com o Chapeleiro Louco, o debate se torna ainda mais evidente, pois o vilão teoriza que o Arkham é uma mente, todos esses inimigos estão dentro dessa mente e talvez essa mente seja a do próprio Batman, ao olhar no espelho somos você.

alice-fig-1Cena de Arkham Asylum: a serious house on serious earth, 1989

Já na tão aclamada série animada de 92, bastante conhecida por alavancar o sucesso de Batman entre o público em geral, temos um episódio que trabalha exclusivamente com essa questão, o Julgamento. Aqui a dúvida é levantada não somente por seus inimigos, mas pela promotora de justiça de Gotham que é forçada a defender o cavaleiro em um julgamento dentro do Asilo Arkham com quase todos os principais vilões da franquia, sim a inspiração é gritante. Em meio a tanto vilões, a promotora começa a questionar se de fato não foi o próprio Batman que criou os criminosos ou eles o criaram. O debate tende a inocência do herói, afinal se tratava de um desenho para crianças.

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Com a trilogia de Nolan essa visão de um efeito ação reação fica bastante evidente. Assim que Batman surge e escolhe combater o crime há uma elevação, uma escala. O próprio Comissário Gordon explica isso ao dizer que os vilões estão sempre um passo à frente e agora há um cara usando uma máscara pulando de prédio em prédio.

Em o Cavaleiro das Trevas a relação de Ying e Yang entre o Coringa e ele é colocada em cheque, devidamente inspirado em A Piada Mortal, e cada vez mais essa teoria de que esse crime aumenta à medida que o Batman existe se concretiza. No entanto, é apenas último filme, O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que podemos ver a clareza nos motivos de Bruce Wayne e em sua necessidade intrínseca em ser o Batman. Enquanto ele se mantinha afastado de sua atividade de vigilante, sua vida era resumida em vagar pela Mansão Wayne, vazio e sem propósito, afinal ele não queria também salvar a cidade como seu pai o fazia quando vivo? Como Batman esse propósito está vivo, porém como Bruce não.

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Em meio a tantos vilões e arqui-inimigos, o destino deles é quase que o mesmo, Arkham. No entanto, muitos de suas histórias nunca foram trabalhadas com afinco, apenas trocando de vilão atrás de vilão. O processo se mantém, derrotar o crime, ir preso e conseguir fugir, essa roda é o que mantém o Batman e seu propósito.

Ao olharmos essa personagem temos 2 lados: o milionário Bruce Wayne, dono de grandes corporações, um dos homens mais poderosos da cidade, desenvolve tecnologias e trabalho filantrópico. Do outro lado temos o Batman que salva a cidade durante a noite, o maior detetive do mundo, mestre em múltiplas artes marciais, mas o grande empecilho em seu trabalho seria o fato que os vilões sempre acham uma maneira de escapar?

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Se essa pessoa, um gênio, é responsável por grandes feitos tanto como homem e herói, por que não construir uma prisão melhor e mais difícil de sair?

Talvez ele não queira.

O questionamento levantado é: Bruce Wayne ainda é o frágil garoto que perdeu seus pais naquele beco. A cada noite que ele veste seu manto, o sonho de salvar sua família continua vivo, mesmo que inconscientemente. Caso a cidade de Gotham fosse salva do crime, essa fantasia morreria. A solução para manter seu propósito de vida está em colocar um sistema falho de segurança e assim há razões para salvar a cidade, todo dia. Ao final, o grande inimigo de Gotham é seu maior herói, fruto de uma cidade violenta.

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Com o pé na estrada e a cabeça na lua.