No dia 31 de março de 2021, eu acordei e logo recebi a melhor e mais inesperada notícia que um fã de música experimental e do Shoegaze poderia receber. Sem nenhum aviso prévio, a banda My Bloody Valentine, autora do álbum considerado a “obra-prima do Shoegaze”, liberou sua discografia inteira em todas as plataformas de streaming de música. Além dos 3 álbuns oficiais, disponibilizou também um compilado de EP‘s e rare tracks. No dia 31 de março de 2021, eu devo ter ouvido o álbum Loveless pelo menos umas 8 vezes.

Foto da banda My Bloody Valentine.

Para muitos fãs de música alternativa, esse acontecimento foi como um sonho virando realidade. Antes disso, quem queria escutar alguma música da banda tinha que ouvir pelo YouTube com uma qualidade de som questionável. O álbum mencionado, o mais famoso da banda, Loveless, foi lançado em 1991 e foi rapidamente reconhecido como uma obra prima. Hoje em dia, pode-se dizer que ele é a cara, a marca registrada do Shoegaze, mas de nada adianta eu falar isso se eu não te explicar o que é Shoegaze.

No final dos anos 80 e começo dos anos 90, um novo tipo de som vinha surgindo no Reino Unido e na Irlanda e ganhando uma pequena popularidade. O som em questão era imersivo, poderoso, barulhento, hipnótico e delicado, com o maior foco das músicas sendo suas melodias e a atmosfera criada, com sons distorcidos e com textura. O nome dado ao gênero, Shoe (sapatos) Gaze (do verbo olhar), vem das apresentações ao vivo das bandas, que ficavam constantemente olhando para o chão, em grande parte por conta do forte uso de pedais de som para distorcer os instrumentos, em especial as guitarras. O excessivo uso dos pedais fazia com que os artistas estivessem de cabeça baixa o tempo todo, mexendo nos pedais com os pés, sem se mexer muito. Eles só olhavam para seus sapatos.

Diversos pedais de guitarra, muito comumente utilizados durante os shows.

Não que isso seja uma coisa ruim, muito pelo contrário. Os artistas não se mexiam por foco nas suas músicas, e não viam necessidade em se mostrar para entreter o público, já que sabiam que seu som o faria por eles. Sabiam que sua introversão e timidez não era uma fraqueza, apenas algo característico. E não estavam errados. Com letras quase ininteligíveis, mas vocais suaves e angelicais, instrumentais totalmente distorcidos e envolventes, altos mas suaves, harmoniosamente barulhentos, com grande mas não exclusivo foco nas guitarras, virou piada chamar o gênero de “vacuum cleaner rock” (rock de aspirador de pó) ou “mumble rock” (rock de resmungo). A verdade é que os álbuns sempre tem um quê onírico, um som hipnotizante que parece te levar para um mundo dos sonhos.

Muitos dizem que o primeiro álbum que de fato pode ser considerado shoegaze do começo ao fim é o Psychocandy, lançado em 1983 pela banda escocesa The Jesus And Mary Chain. Sem dúvida, foi um grande precursor para as bandas que iniciaram o movimento, assim como Cocteau Twins, Velvet Underground e Sonic Youth. Todos esses, artistas que de uma forma ou de outra traziam e ressignificavam o conceito de “noise” na música. Melhor falando, eles produziam um barulho organizado. E foi exatamente isso que o shoegaze herdou.

Capa do álbum Psychocandy da banda The Jesus And Mary Chain, 1985

Com todas essas influências, o gênero só foi consolidado e tomou força mesmo depois da formação da icônica e já mencionada banda My Bloody Valentine. Primeiramente, em 1988, lançaram seu primeiro álbum Isn’t Anything. Já inovador e importante para a história do movimento, com claras raízes no pós-punk e rock psicodélico, o álbum definiu padrões a serem seguidos por diversas bandas que o sucederam, mas ainda assim, não teve o mesmo impacto que o segundo álbum da banda, Loveless, de 1991.

Álbum Loveless, 1991.

Loveless é, sem sombras de dúvida, o álbum que mais definiu o Shoegaze, foi a obra prima do movimento. Para muitos, aquilo é o mais Shoegaze que dá para ficar. Depois de seu lançamento, o movimento ficou muito mais reconhecido, mais artistas o adotaram e foi aí que passaram a considerá-lo um gênero musical. Esse impacto todo não foi à toa, já que o Kevin Shields, guitarrista, compositor e líder da banda passou 2 anos produzindo ele, e passou por 19 estúdios diferentes para conseguir o resultado final. Shields era um perfeccionista extremo (não o tipo que você fala que é em entrevistas de emprego, o tipo que, de acordo com diversas fontes, levou sua gravadora à falência para produzir um único álbum), e não deixava ninguém além das pessoas que ele permitia mexerem nas músicas e na produção. Grande parte do álbum foi gravada por ele, não pela banda inteira, já que ele entendia que ninguém poderia chegar no resultado que ele queria além dele mesmo.

Shields tinha uma visão e não ia deixar nenhum (NENHUM) obstáculo atrapalhá-lo no seu processo de realizá-la. O empenho era tanto que ele chegou a criar uma técnica de tocar guitarra (apelidada de “glide guitar”, literalmente traduzida para “guitarra deslizante”) para alcançar o som que desejava em uma música. Em seu produto final, a visão do guitarrista transparece perfeitamente. Os sons abafados, guitarras psicodélicas e etéreas, samples oníricas, vocais angelicais, noise-pop, não começam a descrever nem 10% do que esse álbum traz. Eu vejo a foto de capa do álbum como uma experiência sinestésica do seu conteúdo. Nele, você consegue ver as músicas e o tom que o álbum carrega na sua íntegra. É algo tão diferente e impactante que muitas vezes, para pessoas que não estão acostumadas com o som característico do shoegaze , pode parecer agressivo ou estranho, pois ele o leva ao extremo.

Kevin Shields nos anos 90.

Mesmo Loveless sendo o álbum ideal no contexto do shoegaze, muitos dizem que ele é afogado pela sua própria reputação (que, no rock alternativo, é grande). Outros afirmam que bandas como Slowdive atingiram o ápice desse tipo musical com o álbum Souvlaki, e outros dizem que ele é pequeno demais para ser um movimento, ou afirmam que o estilo nem existe, como o cantor de Mogwai que disse que ele é apenas um termo criado para zombar de bandas alternativas com timidez de palco.

Esse é o engraçado de falar sobre um gênero musical. Nunca há uma verdade completa, pois a música é uma mistura de tudo daqui e um pouco dali, juntando e misturando até chegar em um produto final que pode ou não ser diferente o suficiente para ser considerado algo novo, mas ninguém nunca consegue entrar em um consenso. No fim, tudo se resume em: se você gosta de rock alternativo, dê uma chance pro shoegaze.