Hollywood é conhecida por adaptar o máximo de coisas possíveis, e entre suas práticas favoritas está recriar filmes estrangeiros de sucesso, fracassando na maioria dos casos. Na verdade, falhando na qualidade do filme pelo menos, já que o objetivo de lucrar geralmente é garantido por projetos como esses.

coisaUma das causas na tamanha diferença de bilheteria pode também ser atribuída a falta do costume de ver filmes legendados nos EUA.

Há alguns anos atrás a estratégia de pegar um filme coreano desconhecido e recriá-lo até era compreensível, tendo em vista que certos filmes eram pouco acessíveis ou conhecidos ao redor do mundo, mas hoje a realidade já é outra: filmes estrangeiros nunca estiveram tão em alta.

Apesar disso, os americanos não resistem ao dinheiro fácil e a situação piora cada vez mais, o filme original pode sair hoje e ano que vem já ganhar uma versão americana. Toni Erdmann por exemplo, filme alemão que foi lançado ano passado e conquistou Cannes, já teve seus direitos adquiridos pela Paramount – contando ainda com a participação de Jack Nicholson.

Outro caso é o de Os Intocáveis, filme francês que fez muito sucesso, arrecadando cerca de 10 milhões de dólares e sendo indicado a um Globo de Ouro. Ambos são exemplos perfeitos de filmes que não necessitam uma adaptação, já são reconhecidos, recentes e acessíveis a um grande número de pessoas.

Untouch1A versão americana de Os Intocáveis vai contar com Kevin Hart e Bryan Cranston como seus protagonistas.

Mas qual o problema de adaptar algum filme estrangeiro? A primeira vista, um remake não parece prejudicar ninguém, tendo em vista que os fãs do original podem simplesmente ignorar a versão americana. No entanto, adaptações como as citadas acima, alteram a realidade das obras estrangeiras – que passam a ser produzidas já pensando em uma adaptação americana, ou seja, perdendo parte da identidade local.

Grande parte da atratividade de assistir um filme estrangeiro está em conhecer a cultura de outro país, e quando esses filmes são adaptados, a cultura também tem de ser. Infernal Affairs é um filme de Hong Kong que conta a história de um mafioso se infiltrando na polícia, enquanto um policial se infiltra na Máfia. Lhe parece familiar? Os Infiltrados deve ser a primeira coisa que lhe vem a cabeça ao ver tal premissa, e apesar da adaptação de Martin Scorsese ser um excelente filme, várias coisas tiveram de ser mudadas para que fosse possível americanizar o enredo.

Mensagens sobre os círculos infernais do Budismo, presentes no filme original, foram transformadas em Catolicismo Irlandês. Mesmo que o filme de Scorsese tenha criado um interesse maior na versão original, isso significa que o cinema estrangeiro não é valorizado e deve perder a influência cultural para que seja mais aceito.

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Recentemente, Ridley Scott mostrou interesse em adaptar The Wailing, um extraordinário filme coreano lançado ano passado. Para quem viu o filme, a ideia parece surreal, já que a cultura da Coreia é praticamente essencial ao enredo da história. O filme não seria mais o mesmo, assim como ocorreu com Oldboy, outro filme do país que perdeu completamente toda identidade ao ser transformado por Spike Lee.

27-oldboy-old-vs-new.w529.h352Para ler uma comparação da famosa cena do martelo, clique aqui.

Por fim, quando então que um remake seria compreensível nos dias de hoje? Ao meu ver, a recriação de obras antigas pouco valorizadas ou de filmes que se tornaram antiquados com o avanço tecnológico do cinema são aceitáveis, ou podem até mesmo serem excelentes. Bons exemplos são filmes como 12 Macacos, baseado no filme francês La Jetée, o remake lançou 33 anos depois do original e envolvia ideias difíceis de serem executadas na época do original.

A maioria dos remakes atuais são completamente desnecessários e são realizados pela falta de conteúdo original em Hollywood, consequência da obsessão americana pelo dinheiro. Quanto mais tentarmos mudar a identidade de outros países, ainda mais com a pressa de Hollywood no momento, mais filmes estrangeiros serão prejudicados.

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